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| Acervo particular |
"Carta
poema", de Cynara Novaes (Opção Editora, 2015, 162 páginas)
"Que ninguém se engane: só se consegue
a simplicidade através de muito trabalho", escrevera Clarice
Lispector e, com esta citação, inauguro as linhas que seguem a respeito do livro que li recentemente: Carta poema, de Cynara Novaes.
Com o olhar de quem tira a poeira do cotidiano, ela deu à luz a poemas
com cheiro de quintal de infância, fruta colhida no pé, e tantas outras
sensações que a leitura de seu livro é capaz de permitir. Nesse
sentido, detenho-me na palavra "simplicidade", pois o leitor deparar-se-á com uma linguagem tão simples, que ouso dizer que não há quem não a
compreenda.
Em sua totalidade, o livro reúne 147 poemas e, a princípio, comento
"Poeminha para Maria". Nele, pode-se perceber pequenas verdades
que nos passam despercebidas na vida, como tantas "Marias" que
trabalham submersas em cozinhas, e que com certa alegria dão
brilho às panelas, mas que perdem os seus. Diria que são verdades cotidianas
que humanizam o nosso olhar diante do que outrora passava despercebido, e chama
a atenção para a sutileza com que a poeta deixa marcas do seu posicionamento
social:
"Na sala o gol alto.
Silêncio por todo o quarto.
Lá no fundo, na cozinha,
as panelas viram brilho
e Maria perde o seu.
À essa hora,
parece que todas as mulheres
estão lavando panelas"
Conforme pode ser lido acima, percebe-se a denúncia acerca da alienação
causada pelo futebol, concomitante a isso, na cozinha, encontra-se
"Maria", que está a mercê de um descaso social. Ler que "as
panelas viram brilho e Maria perde o seu" causa incômodo, pois "gente
é para brilhar", como canta Caetano Veloso.
Há outras cenas do cotidiano, e nelas, Cynara rememora lembranças de
infâncias e demais experiências. Ela traz personagens que possivelmente fizeram
parte de sua história e isso permite a compreensão de que estamos diante de uma
das suas fontes de inspiração. Desse modo, não passa despercebido a relação
que ela mantinha com aqueles que a rodeavam, especialmente, a sua
família. Como não se encantar com a memória que diz respeito a um avô em
"Essa tal solidão"?
Essa tal
solidão
Meu avô falava
sobre uma certa solidão intelectual.
Eu, certo dia, lhe perguntei:
- Como é isso?
Ele me respondeu como quem já partia:
- É não ter com quem partilhar
leituras, previsões do tempo,
perfumes de varais,
caminhos sem acostamentos
carteiras repletas de histórias,
mas ausentes de sentimentos.
É falar outra língua,
é sentir-se forasteiro
em nosso próprio lugar.
É viver e faltar.
A benção, vô.
Eu, hoje, também, vivo e falto,
por vezes, vivo mais que falto"
A marcação de travessões no poema apresentam avô e neta num diálogo
afável que demonstra carinho e respeito para com a sabedoria daquele que
explica. Trata-se de uma troca de experiências e da experimentação da vida por
parte de quem indaga.
Conforme já foi pontuado, percebe-se muitas lembranças familiares, sendo
assim, ressalta-se que além do avô, Cynara conta de sua avó e de sua
mãe. Especificamente, nessas memórias, enquanto leitora - que lê pelo prazer, e
não apenas pelo interesse em resenhar, devo dizer que não conheci nenhum
de meus avós, e que fiquei desejosa de ter vivenciado algo semelhante ao que li
em "Bonina":
"A beleza da palavra e o
colorido da flor
compunham a riqueza do jardim da
minha avó
Pequeno, simples até...
A casa de madeira de pintura
desbotada
deixava entrever um rosa seco e o
verde como que saído da cana
Era lá, perante o desgaste da
casa, que a Bonina florescia
Minha avó chamava-me para vê-la
nas raríssimas vezes em que eu a
visitava
Tenho na memória a imagem da
flor,
mas, o nome perdeu grande parte
do encantamento...
Belo mesmo era ouvi-lo dito por
ela,
quando pegando-me pela mão
falava:
Venha criança pequena, ver o
sorriso doce
que nos oferece a Bonina..."
“Todo
poeta é um fingidor”, é o que diz um dos poemas de Fernando Pessoa. Todavia, ao
ler Cynara, não há dúvidas da veracidade dos sentimentos de seus versos. Há um
misto de emoções que bailam diante dos olhos, que sensibilizam, sobretudo, que
nos levam para dentro – onde a palavra lida faz morada.
“Carta
poema” é para ser lido e relido, como quem deseja provar mais uma vez de algo
que comeu e, tendo gostado bastante, deseja repetir, mesmo poemas pequenos como “
Cantiga”, que diz assim:
“As
meninas e a roda,
As rodas
das meninas.
A roda do
carro passou,
Atrapalhando
a brincadeira das meninas”
Crianças
brincar na rua é algo quase escasso nestes tempos tecnológicos e violentos. Em
apenas quatro versos, é recorrente a imagem de crianças brincando, e, além
disso, é recorrente em mim o tempo em que era eu quem brincava de roda. Desta
maneira, recordar cenas como estas trazem alegria, todavia, além desse sentimento,
ler que um carro passou e atrapalhou uma brincadeira de roda, causa indignação,
pois é como se a roda do carro atrapalhasse a minha leitura.
Mais
adiante, também encontramos metalinguagem e até diálogo com o leitor. Acerca da
primeira citada, considero uma das formas mais incríveis de escrever, pois é
Poesia sobre Poesia, é sobre a condição de ser poeta. Isso pode ser percebido
no poema “Parceria”, que diz: “Quero fazer um poema, uma poesia/Mas falta cor,
som, harmonia(...).
Sobre o
segundo citado, em “Ensaio”, especificamente nos últimos versos, Cynara situa o
leitor do seu poema, ela diz: “Oh, como me encantam as possibilidades.../Eu
escrevendo e você, possivelmente, lendo (...)”. Particularmente, enquanto
leitora, gosto muito de ser citada nos textos. Desta feita, assim como admiro
Machado de Assis, também admiro a poeta que resenho.
Aos
possíveis remetentes, Cynara deixou seu “Endereço”, e para que nenhum
remetente-leitor se perca no caminho, convém o poema na íntegra:
“Moro no
principio da delicadeza,
onde o
traço do sentir se inicia.
Na
formação do sereno,
no descanso
das palavras,
na curva
da letra, no risco,
no pensamento
que se estende pelo silêncio a fora.
Conjugo-me
no presente. Não tenho memórias do passado.
Encontro-me
no vão entre os parágrafos,
no sussurro
das entrelinhas,
no perfume
adocicado do poema,
Nos sutis
sinais que avisam da curva,
a chegada
da inspiração.
Moro nas
coisas pequenas.
Encontro-me
nos detalhes que quase somem,
na partícula
do trigo, muito antes do pão,
no espaço
entre o sopro do verde sobre a pele do chão...
Moro no
movimento suave da pálpebra que anuncia o sono,
no intervalo
entre a respiração e o beijo.
Sim,
resido na delicadeza como o sereno e a manhã,
como o
desenho e o grafite...
E sempre
me encanto.
E nunca
desejei outro endereço.”